Quem Liga?
- falcone63
- 31 de jul. de 2025
- 4 min de leitura

Tem coisa mais curiosa do que essa frase repetida na mídia? “O banco nunca liga.” E, de fato, não liga. Ou melhor: não ligava. Porque, hoje, a história mudou. E mudou muito. Basta atrasar uma parcela, extrapolar o limite do cheque especial ou estourar o cartão de crédito para ver o telefone tocar — ou o WhatsApp apitar. De repente, o silêncio da instituição vira um interesse quase afetuoso pela sua saúde financeira. Claro, afetuoso só até certo ponto: o banco não está preocupado se você dormiu bem à noite ou se a ansiedade anda alta com o fim do mês. Ele quer saber de uma coisa só: quando é que você vai pagar?
O curioso disso tudo é que, até ali, até o calote bater à porta, ninguém tinha te perguntado como estavam as suas finanças. Nenhuma conversa sobre planejamento, nenhuma ajuda na organização do orçamento, nenhuma oferta de crédito mais saudável. Mas bastou o sinal vermelho piscar para aparecerem as tais “soluções financeiras” milagrosas — que, no fundo, muitas vezes mais empurram o problema para frente do que resolvem de verdade.
O banco não liga para oferecer educação financeira sem viés. Liga quando percebe que o risco bateu no limite. E por quê? Porque, no fim do dia, a relação cliente-banco ainda é regida por números e uma lógica fria: risco e retorno. Se você é um bom pagador, ótimo. Vai receber limite, cartão black e um gerente sorridente. Se você vira um potencial inadimplente, aí sim começa a preocupação. Mas não com você — com o prejuízo.
A verdade é que os bancos ainda se movimentam mais por instinto de autoproteção do que por compromisso social. E aqui não se trata de demonizar o sistema financeiro. Ele tem seu papel, seu valor e sua importância na engrenagem da economia. Mas é preciso tirar a venda dos olhos e entender que o banco é um negócio. Um negócio como qualquer outro, que vive de lucro. Por isso, quando escutamos “o banco nunca liga”, é bom completar a frase: “a não ser que o dinheiro esteja em risco”. E esse tipo de relação desequilibrada mostra o quanto ainda precisamos evoluir na forma como lidamos com o crédito e o endividamento no Brasil. Porque educação financeira de verdade não pode vir só na hora da cobrança. Precisa vir antes, na base, quando ainda dá tempo de fazer escolhas melhores.
A segunda frase que a gente ouve por aí e que, sozinha, já explica boa parte da crise silenciosa que atravessa os corredores das empresas no Brasil. “Problema financeiro é pessoal. Fica fora da empresa.”
Sabe o que essas duas frases que destaco têm em comum? A ilusão de que dinheiro — ou a falta dele — é um problema que dá pra isolar. Como se fosse possível deixar as dívidas trancadas no porta-luvas do carro antes de subir pro escritório. Como se o estresse por não conseguir pagar o aluguel ou a escola dos filhos não invadisse a cabeça de um colaborador no meio da reunião, no e-mail que ele esquece de enviar, no relatório que sai pela metade.
A verdade é dura, mas precisa ser dita: empresa que ainda acredita que problema financeiro é só do funcionário está desatualizada. Pior: está pagando caro por isso — em forma de baixa produtividade, aumento do absenteísmo, conflitos internos e, claro, rotatividade crescente. Porque ninguém rende bem quando está sendo engolido por boletos vencidos. E quem finge que não vê isso, está empurrando para frente uma conta que vai chegar. Com juros.
O problema é que muita gente no topo ainda acha que bem-estar no trabalho é sinônimo de frutas na copa e tapete de yoga na sala de descanso. Mas o bem-estar começa onde mora o maior peso da vida adulta: no bolso. Funcionário sufocado por dívidas não precisa só de um plano de saúde ou uma sexta-feira casual — ele precisa de orientação financeira, acolhimento e, acima de tudo, empatia.
Assim como o banco só “liga” quando o risco bate à porta, muitas empresas só acordam para a dor dos seus funcionários quando o problema já virou crise. Quando o burnout chega. Quando o pedido de demissão aparece na mesa. Quando o colaborador que era destaque começa a faltar, entregar mal, se desligar emocionalmente.
E aqui vai o ponto principal: empresa que ignora a saúde financeira do seu time está ignorando o próprio negócio. Porque colaboradores mais tranquilos financeiramente tomam decisões melhores, se comunicam com mais clareza, aprendem mais rápido e erram menos. Não é humanismo apenas — é estratégia de gestão.
Está mais do que na hora de entender que o RH é estratégico e deve se posicionar como guardião da saúde integral dos colaboradores. Isso inclui, sim, falar sobre dinheiro. Fazer workshops, trazer especialistas, criar políticas que evitem o superendividamento, expliquem de fato o impacto do crédito consignado, que incentive educação financeira real, com linguagem acessível e soluções práticas.
Porque se o banco só liga quando o prejuízo está vindo, a empresa moderna precisa começar a ligar antes. Precisa se importar de verdade. E entender que bem-estar financeiro não é problema “de cada um” — é peça-chave de uma cultura organizacional sustentável e de um negócio que quer crescer com pessoas, e não às custas delas.
Mais do que esperar o banco ligar, talvez seja hora de a gente começar a ligar os alertas — dentro de casa, no RH das empresas, nas escolas e, principalmente, dentro de nós mesmos. Porque o banco não liga. Mas quem se importa com a nossa saúde financeira, esse sim, deveria ligar todos os dias.
E aí, você profissional de RH sua empresa vai esperar o telefone tocar? Ou vai começar a ligar antes? Quais ações estão voltadas para a saúde financeira dos funcionários?
por José Roberto Falcone
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